segunda-feira, 17 de maio de 2010

Livros bem baratos na Bienal

Vale a pena dedicar um grande tempo à pesquisa e compra dos livros.

Adélia Carvalho na Bienal


Quem não foi, infelizmente perdeu o bate-papo literário e poético. Mas não se esqueça - a Bienal termina dia 23 às 22 horas.

Notícias da Bienal 2010


A Bienal 2010, no que refere a PALAVRA escrita, cantada e falada, oferece de tudo um pouco:
Livros os mais variados, autores vivinhos andando ao seu lado, frozen, café de qualidade, cerveja gelada para adeptos, bom papo, curiosos, desavisados, amantes da boa literatura.
E, não é, que o meu marido conseguiu encontrar, bem no cantinho do evento, um sanduíche de hambúrguer duro de doer os dentes? Creio que por descuido nosso e do buffet que dedica seu tempo a eventos.
Bordas duras de lado, dentre tantos outros atrativos gustativos de qualidade – estão os livros: Cadernos de Literatura sobre Clarice Lispector a 15,00 reais, Raduan Hassan por 12,00, Adélia Prado acabou, tamanha foi a disputa, mas chegará mais nesta semana. Grandes filósofos pela bagatela de 4,00 reais, livros infantis e poéticos de lavar a alma da Coleção Miguilim por apenas 4,00 reais.
A Bienal, também existe, para provar que livro não é caro, basta saber procurar. Já que sou compradora experiente de livros, recomendo sacola grande, paciência, roupa confortável e boa companhia. Sente no chão, se preciso for e separe os seus livros, não compre no primeiro stand que entrar. Caminhe até o miolo do evento, não tenha medo das bancas com livros diversos, certamente encontrará preciosidades. Livros acima de 20,00? Você quer mesmo gastar!
No sábado, dia 15, encontrei a Adélia Carvalho por lá. Magnífica, em seu vestido de poá e barra floral. Flores vivinhas, brotando idéias e fazendo a cabeça da gente seguir a sua voz, enquanto lia seus textos. Se você ainda não teve o prazer de conhecê-la, acesse o site http://adelia.carvalho.zip.net/ e confira. A encontrei sentada, no meio da Arena, dizendo: “Tudo aconteceu precisamente dessa forma...” Se você tem algum amigo que partiu antes do tempo, surpreenderá com o final dessa história!
Entre no site da Bienal www.bienaldolivrominas.com.br e escolha os eventos que deseja participar: Lançamento de livros, contação de histórias, oficinas de arte e o fenomenal contato com as editoras. Para você que tem palavras guardadas e deseja compartilhá-la com outras pessoas vale a dica, procure a Usina de Letras.
Confira algumas fotos que comprovam que tudo o que disse é verdade. Convide seus amigos, inimigos, se tiver – já que literatura acalma os ânimos e aprimora as pessoas. Mas não se esqueça de convidar o pedidor-de-livros-emprestados, ajude-o a comprar e compartilhar livros com você!
Bienal, o maravilhoso mundo dos livros, onde tudo é possível, até montar a sua biblioteca. Mas fica o alerta: todas as possibilidades terminam dia 23 de maio às 22 horas.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Frigideira e Azeite-extra-virgem

Olvidar-me.
Não sei se é recordar ou esquecer.
E, acaba sendo o mesmo.
Porque, saber que esqueceu
é uma forma de lembrar.


A empregada agachara para procurar a frigideira dentro do armário, debaixo da pia. Ficou de quatro, sem atentar-se para o fato. Estava sozinha mesmo, os patrões haviam saído. Tateou de um lado a outro. Foi adivinhando as panelas pela forma e textura. Segurou pelo cabo a frigideira. “Achei”. Porém, bastou pegar o cabo – veio a palavra em sua cabeça: FRIGIDEIRA. Olhou para a panela redonda, de laterais baixas, como se visse uma pela primeira vez. Mas, uma dessa forma, era de fato, a primeira. Fez a ponte: frigideira-frígida. Lera uma matéria inteirinha sobre frigidez, no último sábado, no salão da Cota. “Coisa triste, para uma mulher pobre” pensou. “Imagina, além de pobre, ser frígida?”. Essa tal doença, devia é ser coisa de rico, que tem outras compensações.
Colocou o caderninho de receitas sobre a mesa, a panela sobre a trempe, e antes de acendê-la, observou uma pequena mancha de gordura. “Preguiçosa”. Pensou sobre a patroa. Assanho-lhe as idéias. “Nem mesmo lavou a panela direito”. Ela? Ela nunca fora preguiçosa, nem nunca lhe faltou esforços para ter e dar prazer. Lembrou dos namorados, do ex marido, aquele tal, sem vergonha, tocador de viola, que não mantinha a braguilha fechada. Por conta disso, resolveu atualizar-se. Separou. Para não ter que dividir homem com ninguém. “Homem é feito pirulito, não se dividi.” Riu de si mesma. Mas depois, já livre de aborrecimentos, foi se tornando tão difícil... Chegava exausta do trabalho e não tinha ânimo para descer para o Verdão. "Baile? Com aqueles aposentados que podiam acordar a qualquer hora no outro dia?" Pois então, foi se acostumando a deitar cedo, às vezes dormir, às vezes não. Sentia falta de ter alguém ali ao seu lado, mas não queria homem desgovernado. O último namorado a deixara a ver éguas e cabras pela fresta. É, nada acontecera. E ela pensando “que homem respeitador”. E, além disso, engomou muita camisa, passou outras tantas e cozinhou rabada, costela de boi e de porco e a tal couve cortada a faca de doer os dedos. Por conta de tantos desencontros resolveu ficar só. Soma de anos desde então.
O telefone tocou. Largou os afazeres da cozinha e subiu as escadas correndo. O único telefone da casa, ficava no quarto, na mezinha de cabeceira da patroa.
- Alô!
- Cida? Sou eu, Lúcia.
- Oi, dona Lúcia.
- Olha Cida, eu e o Ernesto não vamos almoçar em casa, vamos chegar só depois das cinco. Então não precisa preocupar com a gente.
- Sim senhora, dona Lúcia.
- Faça alguma coisa para você comer, lave o banheiro do meu quarto e passa a roupa. Pode sair mais cedo hoje, viu?
- Obrigada, dona Lúcia.
Desligou o telefone. Estava a colocar os bofes para fora, tamanha a rapidez investida na escada. Sentou na cama dos patrões. “Como é macia”. Levantou e sentou com mais força. O colchão brincou com ela, para cima e para baixo. Gostou da brincadeira.Deitou. Esparramou-se toda sobre a cama. Enrolou-se no edredom branco, de flores rosas e folhas verdes. “Que cheiro bom”. Desejou deitar numa cama desse tipo, com um homem espadaúdo, forte, decidido. Já que a patroa não retornaria, refestelou-se.
Acordou assustada, com um barulho na porta da sala. Afinou os ouvidos. Nada. Alinhou rapidamente as cobertas. “Será que os patrões chegaram?” Desceu. A porta de entrada fechada. E a Belinha pulando na porta, tentava entrar. “Ah, só me faltava essa, até cachorra me acorda!” Confirmou as horas no reloginho de enfeite dentro da cristaleira. 11:45. “Ah, dormira pouco.” Foi até a área, pegou o balde, desinfetante, pano de chão e o rodo, subiu para a suíte. Era cedo ainda. Tinha um bocado de tempo a seu favor. Entrou no banheiro. Olhou todos os bibelôs da patroa. “Quanto perfume do estrangeiro!” Abriu a torneira da banheira. “Lavar? Lavo depois”. Tirou a blusinha azul marinho e a bermuda. Jogou para o alto. Desfilou de calcinha e sutiã em frente ao grande espelho do banheiro. Gostou do que viu. “É, ainda dou um bom caldo!”.
- Ernesto, Ernesto, traga os meus sais de banho?
Gritou, imitando a voz da patroa. Despiu-se. Arremessou a roupa íntima na cama dos patrões. Sempre quisera fazer isso. Colocou o pé direito dentro da banheira. Um arrepio percorreu todo o corpo. Aumentou a água quente. Entrou devagar. Aproveitando a água que lentamente cobria o seu corpo. “Isso é que é vida.” Pegou o primeiro frasquinho no aparador. Aromatizador de ambiente. “Não, não, isso não.” Sais de banho. “Ótimo.” Derramou sem miséria o pozinho azul que dissolveu na água. “Que cheiro bom”. Tirou os grampos dos cabelos. Arremessou no vaso sanitário. Um a um. Afundou inteiramente na água. Ficou por alguns segundos. “Puxa, estou aqui pouco tempo e já quero ser rica”.
Despejou o xampu importado nas mãos. Esfregou nos cabelos, depois o condicionador. Esfregou a bucha, com sabonete líquido em cada dobra, até sentir a pele arder.
Enxaguou-se. Sem pressa. Secou-se com a toalha do Ernesto, que também jogou sobre a cama. E dispôs a toalha da Lúcia nos cabelos molhados. Procurou algum perfume. Não conseguiu abrir nenhum. “Bem, quem não tem cão, caça com gato.” Pegou o aromatizador de ambiente e apertou debaixo dos braços. O secador sempre ficava debaixo da pia. Depois de desembaraçar bem os cabelos, passou ar quente neles. “Como estão macios”.
Vestiu o roupão da patroa. Desceu. Corpo leve e a cabeça cheia de idéias. “O que comeria?”. Explorou a dispensa e os frus frus de dias de festa: Canela da índia, bacalhau, pistache, azeitonas negras, creme de balsâmico aromatizado com tomate seco, trufas, azeite-extra-virgem...”Azeite-extra-virgem? É este, é este que eu comerei.” Diagnosticou-se. Não era frígida. Ficara virgem aos poucos, à medida que distanciara os homens de si. E como virgem, não conhece homem, já nem sentia falta. “Esquecera-se ou olvidara-se?”
Decidiu. Faria bacalhoada para o seu almoço. Pôs-se a procurar uma receita no caderninho da patroa. Falsa bacalhoada. “Essa não.” Bacalhoada de pobre. “Muito menos”. Bacalhoada a moda da casa. “Hummm.” Bacalhoada da vovó gu. “Sei não” Bacalhoada Divina. “É essa”.
Separou um quilo de bacalhau, um de batatinha, meio de palmito fresco, 2 cebolas, 200gramas de azeitona verde, 1/2 dúzia de ovos cozidos, 1 vidro de azeite extra virgem, alho, limão e pimenta do reino. Colocou o bacalhau de molho, cortou as batatas em rodelas, o palmito e as cebolas. Cozinhou e desfiou o bacalhau. As batatas foram cozidas na mesma água. Bateu a gema dos ovos cozidos no liquidificador junto com alho, o limão, a pimenta do reino e o azeite. Desfiou o bacalhau e alternou em um pirex batata, palmito, azeitona, claras cozidas, cebola, bacalhau e o molho de gemas. Deixou assar, até dourar.
Pegou a frigideira. Ateou-lhe fogo. Deitou-lhe grossas rodelas de cebola roxa, tomate italiano, alho, champignon e alcaparras. Bateu no liquidificador azeitonas negras, sem caroço, para não faltar nada de luxo. Juntou tudo à frigideira. E para terminar verteu um bom tanto de azeite-extra-virgem, puríssimo, português. Dispôs a mesa com prato fino e uma taça de vinho. Bacalhoada e guisado. Comeu. Lambeu os dedos. Lambeu o prato. Fartou-se.
Fez um embrulho com a bacalhoada restante. Numa vasilhinha tapeware da patroa. Levaria para casa para o jantar. Poderia convidar o vizinho, viúvo há poucos meses. Então, resolveu separar uma garrafa de vinho. Prostrou-se na poltrona, para ajudar a digestão. 15:00. Seria apertado, mas daria conta das tarefas. Precisava descansar só um pouquinho. Dormiu o sono dos extasiados, dos satisfeitos e ricos.
Acordou assustada. 16:45. A patroa deveria estar prestes a chegar. Correu para o banheiro. Certificou-se da desordem. Desceu. Colocou a vasilha e o vinho em uma sacola. Teria tempo para trocar de roupa. Voltou ao quarto, tirou o roupão. Escolheu o vestido turquesa, que a patroa comprara em Teresópolis. Sandália de salto prata. Estava linda. “Rico é que tem problema com roupas, uma para cada horário. Pobre não, veste o que achar bonito.”
Desceu as escadas. Deixou tudo como estava. Teve vontade de deixar um bilhete para a patroa:
“Lúcia arrume a bagunça. Lave bem o banheiro do jeito que o Ernesto gosta. Deixe a roupa passada. Bom dia. Dona Cida.”
Mas teve dúvida – deixe, era com “x” ou “ch”? Então, desceu, pegou a sacola. Foi embora, requebrando sobre o salto, um pouco antes da Lúcia e o Ernesto chegarem, com seus convidados para a Páscoa.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Democracia Canina


Parte 1
Meu cachorro tem medo da mangueira do jardim. Aprendeu a ter medo. Não entende que a água que bebe, vem exatamente dali. Acabei de voltar lá de fora. Molhei o quintal e o jardim. Lavei a vasilha de água com a escovinha azul. Ele? Está longe. Despertou embriagado de sono. Com apenas um salto, saiu do cochilo, na terra vermelha batida e pernas pra que te quero. Assim, simplesmente. Correu em direção à garagem.
Ele corre sempre. A cabeçorra grande balança de um lado para o outro, olhos saltados, musculatura rija, vibra, treme. E lá vai ele no meio do nada, sem rumo ou direção. Só o faz pelo simples fato de correr, sem nem mesmo perceber que, às vezes, se coloca em uma situação ainda pior do que ficar molhado. Outro dia, numa dessas fugas desenfreadas da mangueira rumou para o canto direito do jardim. Onde está a cadeira de ferro e madeira de demolição e estacou entre ela e a plantação de cactos. Sem saída.
Pensei na possibilidade de uma escola de adestramento. Mas, às vezes, acho que ele não escuta bem. Digo a ele:
- Krug nããão.
E ele? Pula.
- Krug senta.
Pula
- Krug pára
Pula.
Ele é feito gente que lê e não entende. Entende? Do tipo que não alcança as entrelinhas. Esta ali - a palavra e o seu significado. A mangueira e a água escondida dentro dela.Feito o meu vizinho, o Ernesto. Outro dia cismou que entendeu a piada e só não riu porque não tinha graça; enquanto o resto da vizinhança ria de doer a barriga.
- Ernesto...procure escutar. Esforce. É só uma piada sobre um papagaio!
E lá vem ele com essa mania de meio ambiente e por isso não ri de piada de papagaio, porque é desumano.
- Desumano Ernesto? Presta atenção...
É, é bem desse jeito. O meu cão e o Ernesto não aprendem não. E como faço se preciso ensinar para ele, até a próxima reunião da Associação de Bairro, o que significa DEMOCRACIA?
Parte 2
Ontem sonhei com o Krug e o Ernesto. E o meu cachorro não só ouvia, mas também entendia as palavras. Então, eu disse para ele:
- Coragem Krug, não precisa ter medo da mangueira do jardim.
Ele olhou para mim, como quem pergunta e porque não deveria ter medo, se no mundo canino, todos cães sem pêlo têm medo de mangueira de jardim?
- Simplesmente porque ela lhe faz bem também.
Então, em seguida enveredei no maravilhoso mundo da água encanada e ele só ouvindo. Foi quando a campainha tocou e o Krug disse:
- Vai lá, enquanto você atende o Ernesto eu acabo de aguar o jardim.
- Como sabe que é o Ernesto?
- Ah Dalva, esqueceu que sou cachorro e tenho faro até em sonho?
Era mesmo o Ernesto, pedi para ele entrar e já fui levando para cozinha, do jeitão que se faz com amigo. Ele foi logo à garrafa de café. Lembrei que tinha guardado algo para ele.
- Peraí, Ernesto, eu já volto.
E voltei.
- Ernesto é para você.
- Presente? Ele disse como se nunca tivesse recebido um.
- É, e é todo seu. Abra.
O Ernesto ressabiado, meio acanhado, desatou o laço.
- Está vendo Ernesto, presente é bom!
Ele riu. Colocou a mão sobre a boca, tapando os dentes amarelos.
- Abra, Ernesto, quanta teimosia..
Foi quando ele se entregou de vez. Desatou o nó. Rasgou o papel de tecido brilhante. Abriu a caixa. Olhou pra dentro.
- Aí, está vendo, doeu Ernesto, ganhar presente?
Ele olhou para mim. Pequenas gotas de água brotaram dos seus olhos claros, feito as que o Krug temia.
- Obrigado. Ele disse
- Não precisa agradecer Ernesto, isso é um presente. De amigo para amigo.
- Dalva, é o que eu estou pensando?
- Veja você mesmo e tire suas conclusões...
Ele olhou para a caixa de novo e foi dizendo baixinho, com uma vozinha que saia lá do fundo:
- Presente...
- Hum hum
- É todo meu?
- Hum hum
- Pode se dar para um amigo... e não dói ter um.
- É exatamente isso.
- Obrigada Dalva, agora sei o que é DEMOCRACIA.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Troca troca de livros


Para você que adora ler livros, cheirar livros, comprar livros, presentear livros...tenho uma sugestão. Que tal trocar livros? Apresento duas formas:

1) através do meu blog: você deve postar nos comentários deste tema: o nome e autor do livro, número de páginas e estado do mesmo, ou 2) fazendo a sua inscrição no http://www.trocandolivros.com.br/, onde deverá fazer o seu cadastro, confirmá-lo e depois inscrever um livro para troca. Meu livro já está postado lá. Gostaria de trocá-lo por algum do Mia Couto, Carlos Renatto, Adélia Carvalho, Adélia Prado, Victor Hugo, Machado de Assis, Guyde Maupassant, Ondjak etc. Vale também divulgar a idéia para amigos. Seria ótimo que indicasse o meu livro também. Então, vamos às trocas de livros e à fantástica experiência literária. Saudações.




quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A Primeira Vez

A infância é o verdadeiro tempo
e a gente só envelhece para saber
É para lá que a gente retorna quando morre
O céu é habitar na gente mesmo, pequeno

Antônio ficara deitado no chão a tarde inteira. O sol amainara e ele apenas estalava mato verde na boca. Sem dor, o corpo solto, as pernas leves, só a cabeça pesava. E pesava, por não entender mais quem era Ana, quem era João. Se não tivesse descido ao terreiro, naquele exato momento, nada dentro dele teria mudado. E estaria uma hora dessas correndo na rua, puxando o fio, o fio levando a pipa, a pipa alçando o céu, e o céu seria todo dele e dos amigos. Esta era a constatação exata do menino, que para certos acontecimentos, não se deve existir.
Horas antes, caíra ali na grama, tonto, absorto, pesado. Um mal estar tremendo conduzira-o a um torpor. Dormira e sonhara que a grama o escondia dos adultos, que pequenas mudas o envolviam feito um cobertor verde musgo. Depois sentira pequenas alfinetadas pelo corpo, enquanto o céu descia do teto e comprimia-lhe o peito. Acordou aflito, sem ar. Pequenas formigas vermelhas passeavam por suas pálpebras e cantos da boca. Temeu ser descoberto. Tremeu por dentro. Quis chamar a Maria, mas isto não era coisa para meninas. E se não era, porque Ana fizera aquilo?
A tarde chegara ao fim. Escutou Maria chamando o seu nome:
- Antônio, Antônio, Antônio...
Levantou resolvido não contar nada do que vira para os adultos. Mas estava partido, lascado, sem tamanho, sem rumo. Ainda ouvia o farfalhar das folhas secas. As frases sussurradas na orelha de Ana. As mãos ágeis do João, borboleteando o corpo dela.
Entrou na casa. Alvoroço. Adultos rindo, falando alto. Parentes e convidados sentados por todos os lados. Enquanto ele, aparente pequeno menino se adivinhava pelos cômodos. Alguém passara a mão em seus cabelos. Antônio sentiu um calafrio. E nunca sentira frio assim. Era Ana, que lhe afagava o cabelo como sempre.
- Não.
Gritou.
As pessoas pararam para olhar de onde iniciara o grito. O pequeno Antônio no centro da sala segurava a mão da bela Ana estendida sobre sua cabeça.
- O que foi meu pequeno? Não é mais o meu príncipe?
Antônio olhava furioso para Ana. E já não a achava tão bonita. Quando se é criança, as pessoas são mais bonitas, mesmo as feias. E Ana já não era bela para ele. E ele já nem era.
A mãe preocupada acudiu logo a convidada.
- Mas o que é isso, Antônio gosta tanto de você. Antônio porque fala assim com a Ana? Olha que ela não se casa mais com você, heim?
O menino sentiu o peito arder. O coração batia ligeiro, feito pássaro contido nas mãos. Teve asco das mãos brancas dela. Queria que todos os adultos da sala se dissolvessem. Olhou para os olhos perplexos da Ana e viu a feiúra dos seus olhos claros, os dentes brancos, a boca estranhamente vermelha. Acendeu-lhe uma pequena chama de fúria, mínima fagulha em mato seco. A boca de Ana não podia...não devia...Não escutava as palavras que saiam dela. Antônio sentiu as lágrimas chegarem aos olhos. Mas ele não choraria. A boca seca, o coração vazio...
- Você não gosta mais da Ana, Toninho?
- ....
- Antônio, Antônio.
De novo Maria o chama do canto da sala, perturbada pela braveza do amigo.
Antônio se sente salvo. Vira as costas para sua antiga forma de menino. Deixa Ana surpresa, deixa o casamento com festa de pirulitos, os cabelos soltos da noiva, seus dentes brancos, os olhos cor de mel...
Avança pela sala, segura a mão de Maria.
- Quer brincar de pique-bandeira, Tonho?
O menino não responde. Descem juntos, a escada que dá para o jardim em frente à casa.
- Não Maria, eu não quero mais brincar.
- E vai fazer o que, sozinho na escada?
- Nada Maria, eu só quero olhar.
Os meninos corriam, as faces coradas, gritos e assovios. Maria entre eles destoava um pouco da mesma Maria do início do dia. Os cabelos anelados ficaram esvoaçantes, o vestido xadrez e fofo a deixava ainda mais menina. Por um momento estacou no meio do grupo, olhou para cima, descobriu Antônio na escada, fez um gesto para o amigo. Ele não respondeu, pela primeira vez, não viu sentido na correria dos amigos.
Sentou na escada. Postou o braço sobre as pernas. Lá embaixo as crianças continuaram correndo, na casa acima, os adultos bebiam e riam alto. Antônio, em silêncio, se avessava sozinho. Não cabia em nenhum dos dois mundos, nem dos adultos, nem das crianças. Olhou para o céu vestido de noite. Nunca o céu lhe pareceu tão distante, tão bonito e tão triste.